Utilização da Metodologia IRDI (indicadores de risco para o desenvolvimento infantil) para a construção das práticas assistenciais em UTIN (unidade de terapia intensiva neonatal)

November 30, 2016

Autora: Patricia Bader dos Santos – Psicanalista, Coordenadora do Serviço de Psicologia do Hospital e Maternidade São Luiz Itaim, Psicóloga do Colégio Essência Equipe de Ensino que atua no atendimento a crianças e adolescentes com diagnóstico de autismo, Professora-Supervisora do Núcleo Psicologia da Saúde da UNIP.

 

A unidade de terapia intensiva neonatal (UTIN) caracteriza-se como um setor especializado pela assistência ao recém-nascido sob cuidados intensivos de médicos, enfermeiros e fisioterapeutas. É o lugar da técnica necessária à conservação do interno, equipado com dispositivos de alta tecnologia.

 

Sabe-se que a internação de um recém-nascido em UTIN pode provocar uma irrupção na estrutura familiar. A condição de prematuridade, quadros patológicos complexos, a suspeita de síndromes, a necessidade de intervenções cirúrgicas precoce impõe as famílias uma rotina desconhecida e inesperada. 

 

O saber médico (e a estrutura de práticas assistenciais sustentadas por esse saber) serve de base para os cuidados oferecidos. A equipe, formada por múltiplos especialistas, mostra-se apta a utilização das tecnologias disponíveis.

Um bebê, em condição de extrema prematuridade, necessita de suporte ventilatório para respirar, sonda nasogástrica para se alimentar, manipulação mínima para evitar sangramento intracraniano. Diante dessas condições, encontramos pais impotentes e dispensados dos cuidados básicos oferecidos aos bebês.

 

Atualmente, as UTINs, preocupam-se com a criação de um ambiente acolhedor para as famílias. O investimento com infraestrutura, principalmente nas maternidades privadas, mostra-se crescente. Setores de hotelaria se especializam na área da saúde.

 

No mesmo ambiente, grupos multiprofissionais tratam da elaboração de ações de humanização, estruturando rotinas que promovam o bem-estar.

 

Temos um campo complexo, convocando-nos a pensar propostas que possam contribuir à essa demanda, tanto institucional quanto familiar. Por um lado, o cuidado especializado ao recém-nascido, como também, um cuidado-outro aos familiares que vivenciam o momento de risco.

 

Esse cuidado-outro leva em consideração o laço social como imbricado às condições de construção do lugar de filiação para um bebê, alertando-nos a reconhecer a peculiaridade dessa construção quando situadas em uma UTIN.

A psicologia, neste cenário, terá uma dupla vertente de trabalho: 1. O atendimento clinico com as famílias e a intervenção precoce na relação cuidador-bebê; 2. O trabalho institucional.

 

Para compor o trabalho, trago dois pontos fundamentais a psicanálise: 1. Sabe-se que a constituição psíquica de uma criança depende, intimamente, das relações com o Outro. É deste Outro que vem justamente o inconsciente; o corpo da criança é marcado pelas inscrições significantes que o Outro lhe atribui, elevando seu funcionamento e suas funções (orgânicas) ao estatuto de corpo de natureza fálica; este Outro exercerá as funções parentais (materna e paterna) definidas a partir de um processo de filiação. A criança é dita pelo Outro, inscrita no desejo do Outro.  2. Sabe-se que os cuidados dirigidos a criança na primeira infância podem diminuir, significativamente, a incidência de transtornos mentais no decorrer da vida.

 

Considerando que os profissionais da saúde são responsáveis pelos cuidados oferecidos aos bebês e estabelecem uma interlocução privilegiada com os familiares durante o tempo de internação, são eles também facilitadores para o estabelecimento do laço entre as famílias e seus bebês.

 

Para isso, o serviço de psicologia, orientado pela psicanálise, propõe-se a: 1. Compor o grupo de trabalho para a elaboração e estruturação de práticas assistenciais que favoreçam o estabelecimento do laço entre as famílias e seus bebês.2. Estruturar as práticas assistenciais a partir da aplicação da Metodologia IRDI – Indicadores de risco para o desenvolvimento infantil, trabalho decorrente da pesquisa multicêntrica sobre os indicadores de risco para o desenvolvimento psíquico (Kupfer,2003).

 

Apresento, como exemplo do trabalho, a elaboração e implantação do grupo Boas Vindas – Projeto de intervenção direcionado aos acompanhantes de bebês internados na UTIN da maternidade São Luiz Itaim.

 

O grupo formado por psicólogo, médico e enfermeiro recebe, semanalmente, os pais dos recém-nascidos internados na UTIN e acontece em dois momentos: 1. Apresentação da cartilha de orientações sobre as rotinas da unidade e esclarecimento de dúvidas referente as rotinas, 2. Abertura da questão fundante que inicia o trabalho grupal: O que acontece com o meu bebê?

 

Para o estabelecimento de uma fala articulada e alinhada entre o grupo de trabalho, a fim de garantir a construção de uma narrativa singular a cada família e bebê, desenvolvemos um programa de estudos sobre a metodologia IRDI com os profissionais envolvidos no processo de cuidado com os internos.

 

Entre os resultados, observamos o estabelecimento de um espaço de troca entre os profissionais e as famílias sustentado pela equipe e não como uma ação isolada de uma especialidade.         

 

Referência bibliográfica:

1. Kupfer,M.C.M et al.(2003). Pesquisa multicêntrica de indicadores clínicos de risco para o desenvolvimento infantil. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 6(2),7-25. 

 2. Kupfer, M.C. et al (2009). Valor preditivo de indicadores clínicos de risco para o desenvolvimento infantile: um estudo a partir da teoria psicanalítica Lat.Am.Journal of Fund. Psychopath. Online, v.6, n.1, p.48-68.

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